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Uso de psicofármacos em crianças e adolescentes
Muitas das patologias mentais que também acometem crianças e adolescentes, entre elas Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), depressão, ansiedade, autismo e pânico, possuem tratamento clínico com importante controle sintomático e, em muitos casos, remissão do quadro, evitando que a doença progrida e propicie melhora da qualidade de vida para as crianças e jovens. Em alguns casos o uso de medicação psicofarmacológica pode ser necessário para o completo controle da doença. Essa medida exige uma série de precauções por parte dos profissionais da saúde.

Em entrevista ao Portal Unimed o Dr. Marcelo Calcagno Reinhardt, médico psiquiatra da Associação Catarinense de Psiquiatria, fala sobre questões relacionadas aos efeitos colaterais dos medicamentos psicofarmacológicos e procedimentos recomendados antes da prescrição de tratamento medicamentoso. 

 
Portal Unimed: Quando o assunto é medicar crianças, há sempre um receio maior quanto aos possíveis efeitos colaterais, essa questão se agrava quando se trata de psicofármacos? Por que?
Marcelo Reinhardt: Sim, o profissional deve estar atento sempre aos possíveis efeitos colaterais, e deve explicar aos pais que todas as medicações possuem chance de apresentar algum efeito colateral. O sono, por exemplo, é apenas um efeito colateral, mas muitas pessoas associam que, se uma medicação causa sono, pode "fazer mal". Mas, por exemplo, Dramin (medicação utilizada para combater náuseas/vômitos) pode dar sono, assim como anti-histamínicos. Por isso explicar sobre os possíveis efeitos colaterais (os mais comuns) pode ser importante.
 
Outro ponto é que ainda há muito preconceito em relação à psiquiatria, aos profissionais e às medicações utilizadas, acredito que pelo menos por duas questões: a primeira é de não termos exames para os diagnósticos, os quais são feitos a partir de um grupo de sintomas e outros critérios muito bem estabelecidos, mas de qualquer forma isso leva os pais a se preocuparem com erros de diagnóstico. Outra questão é uma consequência da primeira, muitos pais consideram medicar "sentimentos/comportamentos", que são vistos como falta de vontade, falta de esforçar-se e falta de controle. Por isso, para poder medicar, o psiquiatra precisa saber diagnosticar bem. É possível ainda considerar outras questões que deixam os pais receosos, como medicações mais antigas e que possuíam muitos efeitos colaterais, o uso indiscriminado de ansiolíticos, o estigma dos transtornos mentais, etc.
 
Portal Unimed: Além de uma avaliação psiquiátrica completa, quais outros procedimentos são recomendados antes da prescrição de tratamento medicamentoso?
Marcelo Reinhardt: É preciso sempre a avaliação completa, verificação do prejuízo e riscos e, obviamente, avaliar se a psicoterapia não poderia ser a primeira e única escolha, assim como mudanças no ambiente (exemplo: em caso de bullying na escola, o ambiente escolar precisa ser trabalhado e a agressão controlada; em caso de situação familiar conturbada, muitas vezes os pais precisam ir para tratamento primeiro ou concomitantemente), e outras avaliações por vezes são necessárias, como avaliação pedagógica e possível acompanhamento com esse profissional. Aliás, em relação a outras avaliações, muitas vezes elas são necessárias para auxílio diagnóstico.
 
Portal Unimed: Ainda existe a ideia de que os psicofármacos possam causar dependência e a criança terá que continuar ingerindo o medicamento pela vida inteira?
Marcelo Reinhardt:  Sim. Primeiramente precisamos esclarecer que há alguns transtornos psiquiátricos que são crônicos e a chance de uso contínuo é grande, infelizmente. Esquizofrenia e Transtorno de Humor Bipolar, por exemplos, são crônicos. A criança/adolescente não ficará dependente da(s) medicação(ções), mas precisará de uso contínuo para o controle dos sintomas de seu transtorno – isso ocorre em outras doenças clínicas, como Hipertensão Arterial Sistêmica (pressão alta) ou Diabetes. Em outros casos, como no Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade, a chance do paciente manter sintomas na vida adulta é muito grande, então pode seguir necessitando de medicação. Isso não significa que ele esteja dependente dela, a medicação segue sendo utilizada para combater sintomas que não desaparecem com o cessar da medicação. Mas se o paciente ou os pais resolverem parar a medicação, o paciente conseguirá ficar sem ela, não está "dependente" dela - o que ocorre é que os sintomas seguem atrapalhando a vida. Seria como se uma pessoa com miopia parasse de usar óculos - ela não está dependente do óculos, mas segue sendo míope, e sofrerá com os prejuízos desta doença.
 
Portal Unimed: Quais as principais dúvidas do pai, mãe ou responsável, para administrar o tratamento da criança com psicofármacos?
Marcelo Reinhardt: A primeira questão é que dificilmente um pai/mãe ficará satisfeito ou tranquilo em dar medicação para seu filho, ainda mais se tratando de medicação psiquiátrica. Mas os pais trazem dúvidas em relação à dependência, ao tempo de uso, aos efeitos colaterais, a possíveis riscos cardiológicos, neurológicos e ao crescimento.

 
Conteúdo aprovado pelo coordenador técnico científico do Portal Unimed Conteúdo aprovado pelo coordenador técnico científico  do Portal Unimed
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