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Como a pandemia tem afetado a qualidade do sono?

Como a pandemia tem afetado a qualidade do sono?

Médicos explicam os fatores que interferem no dormir bem, o impacto à saúde e estratégias para melhorar o sono

Como a pandemia tem afetado a qualidade do sono?

Médicos explicam os fatores que interferem no dormir bem, o impacto à saúde e estratégias para melhorar o sono

29 Março 2021

Incertezas sobre um futuro próximo, receio de perder ou reduzir a renda familiar, dúvida em incentivar o filho(a) a retornar às aulas presenciais, medo de ter covid-19 e necessitar de internação hospitalar, além da dor pelo falecimento de pessoas próximas. Essas são algumas preocupações que têm tirado o sono de muitas pessoas nesta pandemia. Aliado a essas inquietações estão alguns fatores como: gatilhos (luto, isolamento social, situação financeira), alteração de rotinas e falta de sinais cognitivos.

A coordenadora da Semana do Sono 2021 Chapecó – evento apoiado pela Unimed Chapecó – Dra. Amanda Costa, explica que com a crise sanitária muitas pessoas começaram a trabalhar em casa e perderam alguns marcos importantes a exemplo da variação de luminosidade, hábitos alimentares, prática regular de atividade física externa e tiveram flexibilização dos horários de suas atividades diárias. “Esses são marcadores fundamentais para o cotidiano e, consequentemente, a regulação do sono. Em paralelo a isso o contexto atual fez com que as pessoas começassem a exagerar no consumo de eletrônicos (celulares, computadores, tablets) duas horas antes de dormir e ampliaram as preocupações com excesso de notícias relacionadas à covid-19, o que alterou negativamente o sono”, explica.

Uma das reclamações mais frequentes durante a pandemia é o impacto na qualidade do sono. O otorrinolaringologista com especialização em distúrbios do sono e médico cooperado da Unimed Chapecó Dr. Rodrigo Kohler, ressalta que a população brasileira apresenta como característica um elevado número de distúrbios e queixas do sono, agora agravados com o coronavírus. “A reclamação de ‘não tenho dormido bem’ está muito recorrente, porém, pode ser relacionada com diversos distúrbios do sono ou novos hábitos ruins. A insônia talvez seja a patologia que mais se destacou. Dados mundiais revelam que 34% da população apresentou insônia na pandemia, além de aumentar o consumo de medicamentos controlados para tratamento”, alerta ao comentar que a insônia não se apresenta sozinha, ou seja, é necessário investigar comorbidades (estresse, ansiedade, dores e depressão).

Outro fator relacionado é o ganho de peso de 2 kg a 5 kg em média na população mundial durante a pandemia, que provocou o aumento da apneia do sono. A patologia é manifestada com ronco alto durante o sono, sensação de não ter dormido muito bem e apresentar episódios de pausas respiratórias. Para Dr. Rodrigo, a dificuldade em manter uma rotina também chama atenção da ciência. “Em pesquisa realizada, em média, a população mundial passou a dormir e acordar duas horas mais tarde. Ainda temos aqueles que desregularam totalmente seus horários de dormir e acordar. Lembrando que o ritmo é um dos pilares para podermos ter um sono de qualidade”, reforça.

Para o neurologista e responsável pelo Centro de Diagnóstico dos Distúrbios do Sono da Unimed Chapecó, Dr. Auney de Oliveira Couto, as pessoas tiveram que inverter os valores de uma qualidade de vida em função do isolamento social, uma das principais ferramentas para evitar a difusão do vírus. “Estudos publicados recentemente comprovam essa mudança de padrão de sono, seja por um sono polifásico (dormir e acordar várias vezes), pelo atraso da fase de sono (dormir e acordar mais tarde) ou pela alteração no ritmo circadiano (ciclo biológico)”, explica.

 

IMPACTO NA SAÚDE

Sonolência diurna, sensação de cansaço e redução da produtividade são alguns indicativos de noites mal dormidas. Segundo a Dra. Amanda, para o bom funcionamento cerebral e da memória é necessário dormir bem. “Pacientes que não têm ondas lentas, sono de qualidade e mais profundo, não otimizam a memória, não conseguem descansar e terão dificuldade de se concentrar, de ter criatividade e de exercer suas funções. Além disso, podem apresentar sintomas de ansiedade, depressão e fadiga. Também sabemos que pessoas que dormem mal terão menor ativação de anticorpos, o que já ocorre com a redução de uma ou duas horas de sono de qualidade”, comenta.

Para a médica, a qualidade de vida começa quando a pessoa se propõe a dormir de maneira saudável. “Precisamos ter um momento de se desconectar antes de dormir, instantes de paz e relaxamento para que nosso corpo entenda que é a hora de diminuir o ritmo”, recomenda. Durante o dia a orientação é praticar atividade física três vezes na semana de pelo menos 30 minutos, optar por alimentos saudáveis, manter o peso, evitar compensações por meio da comida e diminuir o consumo de notícias sobre a covid-19.

ESTRATÉGIAS PARA MELHORAR O SONO

A necessidade de sono é variável, dependendo da idade e genética de cada um, além de bons hábitos para estimulá-lo. Para quem está com dificuldades para dormir nesta pandemia, Dr. Rodrigo orienta: mantenha um horário para acordar; evite cochilos durante o dia; não fique na cama se não tiver sono, tente relaxar e retorne quando o sono voltar; não leve para o quarto atividades de trabalho ou que possam ser estressantes e realize atividades físicas regulares.

O médico também sugere que o consumo de cafeína seja limitado após o almoço e que seja evitada refeição volumosa no jantar, optando em realizá-la de duas a três horas antes de dormir. “Outra orientação importante é de não levar problemas para a cama. Antes de deitar, anote em um caderno suas preocupações, ansiedades e planos para poder ‘esvaziar’ a cabeça e relaxar. Quando a insônia for uma queixa muito importante, previamente à medicação, medidas como terapias cognitivas comportamentais podem ter um impacto mais positivo. Mas, se mesmo assim os sintomas persistirem, procure um médico especialista em sono para auxiliar no tratamento”, finaliza Dr. Rodrigo.

ATENDIMENTO ESPECIALIZADO

Quando procurar ajuda médica? A resposta, segundo Dr. Auney, está em observar as manifestações de um sono não restaurador, ou seja, dificuldade de concentração, de atenção e de memória, além de sonolência diurna, aumento da ansiedade e da irritabilidade. “Muitos pacientes procuram atendimento com queixas de que não estão raciocinando com clareza ou que estão esquecidos, condição que está diretamente relacionada com a qualidade do sono”, destaca.

Para identificar essas alterações a Unimed Chapecó conta com o Centro de Diagnóstico dos Distúrbios do Sono. De acordo com Dr. Auney, o diagnóstico é realizado com o paciente dormindo, no qual uma técnica observa por gráficos os sinais emitidos por eletrodos durante o sono. O espaço conta com dois leitos e recentemente adquiriu um terceiro aparelho que pode ser utilizado em ambiente híbrido, como um quarto do hospital.