Voltar

Dia Mundial Sem Tabaco alerta os riscos para fumantes

Dia Mundial Sem Tabaco alerta os riscos para fumantes

Pneumologista da Unimed Marília explica como o tabaco age no organismo do fumante

Dia Mundial Sem Tabaco alerta os riscos para fumantes

Pneumologista da Unimed Marília explica como o tabaco age no organismo do fumante

31 Maio 2021

 


 

Dia 31 de maio é celebrado o Dia Mundial Sem Tabaco; data criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientizar a população sobre os efeitos do uso do tabaco e alertar sobre os riscos relacionados ao tabagismo.

Dados da OMS mostram que atualmente existem 1,1 bilhão de fumantes no mundo, e 8 milhões de óbitos anuais devido ao tabagismo, equivalentes a 45% de todos os óbitos por câncer em geral.

Em entrevista à Unimed Marília, a pneumologista cooperada Dra. Valéria Mellen responde às principais dúvidas acerca do tabagismo.

Unimed Marília: Os dados mais recentes (2019) do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que 12,6% dos brasileiros com mais de 18 anos são fumantes. Esse percentual vem diminuindo?
Dra. Valéria Mellen: Em maio de 1999, foi reconhecido que aumento do consumo do tabagismo representava um problema mundial, levando 192 países membros da Assembleia Mundial de Saúde a criar o 1º Tratado Internacional de Saúde Pública sob coordenação da Organização Mundial de Saúde (OMS): a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, da qual o Brasil é signatário desde 2005.

A Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco visa conter a epidemia do tabagismo em todo o mundo, além de visar “proteger as gerações presentes e futuras das devastadoras consequências (sanitárias, sociais, ambientais e econômicas) geradas pelo consumo e exposição à fumaça do tabaco''.

Partindo da Convenção-Quadro, ocorreram as modificações mais impactantes na legislação dos produtos fumígenos (que produzem fumo ou fumaça) brasileiros, como o Decreto 8.262, de 31 de maio de 2014, que proíbe o fumo em quaisquer ambientes fechados, proibiu os fumódromos, restringiu ainda mais a propaganda de cigarros e aumentou nas embalagens os avisos sobre os riscos à saúde.
Como resultado, entre 1989 e 2005 houve uma redução do consumo de cigarros em torno de 32%. Já a prevalência de fumantes na população acima de 18 anos caiu de 34% em 1989 para 22% em 2003, e para 16% em 2006. Nos EUA, a prevalência de tabagistas adultos reduziu em torno de 15%.

Unimed Marília: Quais as consequências do uso do cigarro, a curto e longo prazo.
Dra. Valéria Mellen: O consumo contínuo da nicotina faz o cérebro adaptar-se e passar a precisar de doses cada vez maiores para manter o nível de satisfação anterior à "tolerância à droga”. Dessa forma, o tabagista sente necessidade de consumir cada vez mais tabaco, e, com a dependência, cresce o risco do desenvolvimento de determinadas doenças.

O consumo do tabaco é demonstrado em vários estudos como fator causal de quase 50 doenças diferentes, muitas delas incapacitantes e fatais, como neoplasias, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crônicas. Esses estudos mostram que esse consumo é responsável por 45% das mortes por doença coronariana, 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica, 25% das mortes por doença cerebrovascular e 30% das mortes por neoplasias. É importante enfatizar que 90% dos casos de câncer de pulmão manifestam-se em fumantes, demonstrando a forte correlação dessa doença com o tabagismo.

Unimed Marília:  Qual a primeira atitude que uma pessoa que fuma deve adotar para atingir o objetivo de vencer o vício?
Dra. Valéria Mellen: Ter uma motivação e se conscientizar da necessidade e riscos do tabaco e posteriormente, procurar ajuda de profissionais capacitados.

Unimed Marília: Atualmente os adolescentes aderiram o uso do narguilé, que é a mistura de tabaco, com essência e/ou aroma. Quais os malefícios que este uso traz?
Dra. Valéria Mellen: Os produtos do tabaco (cigarro, cigarro eletrônico, narguilé, charutos, cigarrilhas, cachimbos, tabaco mascável, rapé, etc) nas suas mais diferentes formas (fumado, aspirado ou mascado) promovem dependência física, psicológica e comportamental, semelhante ao que ocorre com o uso de outras drogas, como álcool, cocaína e heroína.

A dependência obriga os fumantes a inalar mais de 4.720 substâncias tóxicas, como monóxido de carbono, amônia, acetonas, formaldeído, acetaldeído e acroleína, além de 43 substâncias cancerígenas, sendo as principais: arsênio, níquel, benzopireno, cádmio, chumbo, resíduos de agrotóxicos e substâncias radioativas.

 

Unimed Marília: No caso de pessoas que não fumam, mas convivem com fumantes, quais os riscos a que elas estão sujeitas?
Dra. Valéria Mellen: Os tabagistas passivos apresentam o risco 30% maior de desenvolver câncer de pulmão e 25% maior de desenvolver doença cardiovascular, além de outras doenças respiratórias. As crianças, principal exemplo de tabagistas passivos, apresentam o risco de aumento de infecções respiratórias, morte súbita infantil, asma e otite média. Não há, no entanto, dados que demonstrem aumento de risco de doença pulmonar obstrutiva crônica entre tabagistas passivos.

Unimed Marília: Qual seria a principal orientação médica para pessoas que não conseguem parar de fumar?
Dra. Valéria Mellen: Quando o paciente está na fase de pré-contemplação, fase esta, que o fumante acredita que consegue parar de fumar a qualquer momento e só não o faz imediatamente por não ter vontade. A abordagem do profissional de saúde deve limitar-se à conscientização sobre a importância de cessar o hábito, convidando-o a pensar sobre o assunto. Qualquer abordagem mais agressiva, ou mesmo prescrição de fármaco, não será efetiva. Diante de um paciente tabagista, a abordagem mínima do profissional de saúde deve envolver as seguintes manifestações:

“Já pensou em parar de fumar? ”, “conhece as doenças relacionadas ao cigarro? Eu posso ajudar”. Dessa maneira, a comunicação se torna mais leve e de fácil aceitação por parte do paciente.

Unimed Marília: Com a evolução da medicina, como são feitos os tratamentos?
Dra. Valéria Mellen: As ações para que o paciente deixe de fumar devem basear-se em uma abordagem cognitivo-comportamental, podendo ser utilizado apoio farmacológico (medicamentos) em condições específicas. A terapia cognitiva comportamental visa detectar situações de risco que levam o indivíduo a fumar e desenvolver meios de enfrentamento para essas situações. Estudos comprovam que, qualquer que seja a duração dessa abordagem, há aumento na taxa de abstinência. Quando se associa tratamento farmacológico a esse método, observa-se aumento ainda maior nas taxas de cessação.

O uso de fármacos representa um recurso adicional no tratamento do tabagismo quando a abordagem comportamental é insuficiente pela presença de elevado grau de dependência à nicotina. A farmacoterapia está indicada, geralmente, quando:

a) O paciente fuma 20 cigarros ou mais por dia;
b) O paciente fuma o primeiro cigarro até 30 minutos após acordar e consome, no mínimo, 10 cigarros diários;
c) O paciente apresenta teste de Fagerström = 5, que consiste em responder um questionário e a somatória dos pontos indica o nível de dependência à nicotina. 
d) O paciente tentou parar com a abordagem cognitivo-comportamental e não conseguiu, devido aos sintomas de abstinência insuportáveis;
e) Não existem contraindicações clínicas aos fármacos propostos.

Faça o teste de Fagerström clicando no link:

http://www.unimed.coop.br/portalunimed/cnu/quiz-tabagismo/

Os fármacos com evidências de eficácia são classificados em nicotínicos e não nicotínicos. Na Terapia de Reposição de Nicotina (TRN), a bupropiona e a vareniclina são consideradas de primeira linha, enquanto a nortriptilina e a clonidina são de segunda linha no tratamento.

A TRN visa à substituição da nicotina do cigarro por doses menores e mais seguras, reduzindo os sintomas da abstinência.

Unimed Marília: Adesivos e cigarros eletrônicos são eficazes?
Dra. Valéria Mellen: Os adesivos visam a substituição da nicotina do cigarro por doses mais seguras e menores. Os cigarros eletrônicos se apresentam como dispositivos eletrônicos que aquecem uma solução que pode ou não conter nicotina, produzindo vapor a ser inalado. Quando nicotina presente, os indivíduos tendem a utilizar o cigarro eletrônico até atingir a satisfação com os níveis de nicotina e alguns permanecem em uso crônico deste.

Ainda não há consenso se a troca do cigarro pelo cigarro eletrônico de forma exclusiva ajuda ou não a manter-se sem o cigarro. Em relação aos tabagistas de cigarro comum, o universo de indivíduos em uso de cigarro eletrônico é pequeno, porém, no grupo de adolescentes e jovens a prevalência do uso de cigarro eletrônico é maior. Porém, apesar do aumento do uso de cigarro eletrônico nestes grupos, ainda sim temos a redução da prevalência de tabagismo.

Instituído o tratamento, o paciente deve manter acompanhamento regular e multidisciplinar com equipe de saúde. O objetivo é mantê-lo motivado na cessação do tabagismo e orientá-lo quanto a estratégias para diminuir os sintomas desagradáveis da abstinência, prevenindo as recaídas.

Unimed Marília: Ao parar de fumar, qual benefício imediato?
Dra. Valéria Mellen: 20 minutos depois de parar de fumar, a pressão sanguínea e as batidas cardíacas voltam ao normal.
Após 8 horas: A quantidade de monóxido de carbono no sangue diminui quase pela metade, normalizando a oxigenação das células.
Em dois 2 dias já não há mais nicotina no organismo, melhorando o olfato e o paladar.

Unimed Marília: O que acontece com o organismo após o fumante abandonar o cigarro?
Dra. Valéria Mellen: Parar de fumar reduz risco relativo de comorbidades associadas ao tabagismo. O risco relativo das doenças relacionadas ao tabaco reduz após a cessação do tabagismo. Por exemplo, após 15 anos sem fumar, o risco de óbito por doença cardiovascular passa a ser igual aos daqueles que nunca fumaram.

Para finalizar, é necessário tomar consciência de que sempre é tempo de cessar o tabagismo. Não podemos esquecer que principalmente no momento da pandemia em que nos encontramos, o tabagismo é um potente fator de risco para a covid19.