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A Oncologia e o poder da humanização

A Oncologia e o poder da humanização

A Oncologia e o poder da humanização

Por Dra. Danielle Magalhães Sá Goulart – oncologista clínica

     Para o bom desempenho na oncologia é necessário humanização. Embora os avanços da medicina e o aumento das taxas de cura, o câncer ainda traz estigmas e tabus. Grande parte das pessoas associa o diagnóstico a sofrimento, dor e morte. Na oncologia, a humanização faz toda a diferença. Enxergarmos o paciente em sua essência com o foco em sua qualidade de vida e bem-estar físico, emocional e espiritual. No tratamento de câncer é essencial o acolhimento do paciente e seus familiares, estabelecendo um vínculo entre médicos e pacientes, tratando o indivíduo em suas particularidades, individualizando o melhor tratamento para cada pessoa, respeitando seus anseios, valores, medos e temores. Não podemos tratar o paciente pelo CID de sua doença. Na oncologia humanizada a ênfase está no paciente, e não apenas na doença, e assim, tornarmos essa jornada mais leve.

     “O sofrimento humano só é intolerável quando ninguém cuida", verdade dita por Cicely Saunders, fundadora do Christopher’s Hospice, em Londres em 1967, o primeiro “hospital” a reunir os especialistas em controle da dor e controle de sintomas, formando profissionais na área de cuidado humanitário, ensino e pesquisa clínica, pioneiro no campo dos Cuidados Paliativos. Por vezes, tudo o que o paciente e seus familiares precisam, é ter um atendimento humanizado, um vínculo, um acolhimento, saber que não estão sozinhos, que tem alguém que ilumine o caminho para dar o próximo passo, alguém que esteja ali, quando o medo do desconhecido se aproxima.

     A Oncologia, assim como a medicina em minha vida, nasceu por um anseio de ajudar o próximo, e eu sempre tive muito temor de me esquecer disso durante a caminhada.  No início de minha jornada acadêmica, em 2003, participei do Simpósio de Neurologia falando sobre doenças crônicas, neurodegenerativas, dos tratamentos que vão muito além do físico, que abrange a complexidade do indivíduo, suas emoções, e engloba todo núcleo familiar e o que está a sua volta, e isso deu um propósito a minha vida acadêmica.

     Em 2005 me deparei com doença oncológica em um de meus melhores amigos. Aos 22 anos, ele foi diagnosticado com Câncer de Rim Metastático, e pude ver de perto o quanto é complexo o mundo desta doença. Ele ficou em nossa casa por cerca de dois meses, e ver a evolução natural da doença fazendo desmoronar um futuro, fez-me repensar muita coisa na medicina e na vida. Após algum tempo de tratamento, o levamos para a Fundação Cristiano Varela, na cidade de Muriaé/MG. O acolhimento humanizado naquela instituição diante de tudo aquilo que nós conhecíamos, nos surpreendeu positivamente no desfecho da doença e da vida de meu amigo. Lembro-me como se fosse ontem, eles nos permitiram entrar no hospital tarde da noite para dizermos o último “adeus”, “te amo”, “você não está sozinho”. Com isso, pensar sobre morrer com dignidade fez-se necessário.

     Em 2006, um grande amigo da minha família foi diagnosticado com Câncer de Cabeça e Pescoço, e meus familiares o acolheram, e vivemos mais uma vez o curso da doença, a dor, sofrimento, medos, sonda nasogástrica, comidas batidas, sangramentos, curativos, hidratação, idas e vindas ao pronto-socorro, e por vezes o descaso dos profissionais de saúde com o sofrimento alheio.

     Mais uma vez fomos surpreendidos, em dezembro 2007, com o diagnóstico da minha avó com Mieloma Múltiplo, tipo de Câncer Hematológico, e mais uma vez senti na pele a falta da humanização em saúde; e buscamos mais uma vez o acolhimento humanizado em outra cidade. Naquele local, pude encontrar o atendimento humanizado desde a recepção até o gestor, passando por faxineiros, jardineiros, enfermeiros e médicos que fizeram toda a diferença; o toque, o sorriso dos profissionais de saúde marcaram nossas vidas nesta caminhada da doença que tirou nosso chão, e levou nossa matriarca em apenas 30 dias. Mais uma vez os assuntos como humanização, dignidade, morrer bem, foram tomando conta dos meus pensamentos naquele ano que me formava como médica.

     De certa forma, sentir o sofrimento desta doença tão de perto, trouxe-me uma resistência à especialidade de Oncologia. Especializei-me em Clínica Médica, que é pré-requisito para Residência em outras especialidades. E em 2009, no hospital em que era residente, eu lembro como se fosse hoje, uma voz ecoou dentro de mim “Eu não desisti do propósito que te chamei na Medicina”, e algo dentro de mim apontava para a Oncologia. O tempo foi passando, e eu me esquivando disso, por medo de ser pesado ou sofrido como tantos colegas diziam. Ao terminar a residência em Clínica Médica, fui convidada a trabalhar no hospital onde fiz a residência no controle clínico e cuidados paliativos dos pacientes oncológicos. Desde então me apaixonei pela área, entendi que era muito mais que uma profissão, era uma missão. E dentro de mim ficava o incômodo constante quanto a fazer uma nova residência em Oncologia, e encarar mais três anos de especialidade numa jornada de 60 horas semanais iam pesando contra, porém sempre ficava a sensação “Não estou fazendo aquilo que deveria fazer”.

     Aceitando o desafio, fui fazer residência em Oncologia Clínica na Fundação Cristiano Varela, em Muriaé/MG, o qual sou profundamente grata por todo aprendizado. Naquele lugar, aprendi com o exemplo de Humanização, cuidado integrado, experiência profissional, dar dignidade ao paciente, não desistir do ser humano mesmo quando a doença é incurável.

     Hoje, atuando no serviço de Oncologia da Unidade Assistencial da Unimed Norte Fluminense, em Itaperuna/RJ, trabalhamos com empenho de forma humanizada, sabendo olhar nos olhos do paciente, ouvindo, desacelerando, e respeitando o tempo do paciente. Não dá para tratar o paciente pelo nome da doença, precisamos respeitar a identidade de cada ser humano, seus anseios, seus temores, suas dúvidas. Acho estranho pensar em humanização, ou em “slow medicine”, como algo novo.  É algo que nunca deveria ter sido apartada de nossa prática diária, mas hoje é fundamental a nossa luta em retornar e resgatar a humanização perdida. Os pacientes e familiares precisam de alguém que os ajude a dar o reestart da vida e diga “vai viver intensamente a vida, reconstrua pontes”, “enxergue os milagres diários, os sorrisos, o sol, a criança crescendo”, “retome os sonhos adiados, o abraço esquecido, as palavras inauditas”, “perdoe”, “peça perdão”, “livre-se de todo peso que não faz sentido carregar”, etc.

     Auxiliar nessa caminhada é o propósito da missão, oferecendo todo arsenal de tratamento oncológico que temos disponíveis para curar sempre que possível, e mesmo quando a doença for incurável, isso não quer dizer que é para “não fazer nada” e abandonar o paciente e a família “à mingua”, e sim fazer de TUDO para dar qualidade de vida, dar dignidade, aliviar a dor física, a dor emocional, ajudar na dor espiritual.  É tentar dar nova perspectiva em viver a vida que ainda se renova a cada manhã, e se preparar para o desconhecido que ainda virá.  Como diz a médica geriatra e paliativista Ana Cláudia Quintana, “A morte é um dia que vale a pena viver”, e embora ninguém goste de falar nisso, é necessário.  A verdade é que nenhum de nós sabe o que acontecerá amanhã, pois a vida é como um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece.

     Nosso objetivo, desde o projeto da Oncologia da Unidade Assistencial da Unimed Norte Fluminense, sempre foi a Humanização, e meu anseio se expressa em um texto que tive o prazer em ler “Que eu não perca a fé, mesmo convivendo tão de perto com a morte. Que eu não me acostume com o sofrimento, e que eu não me torne indiferente a cada vida salva, a cada sorriso de agradecimento, a cada vida nova. Que eu não me perca dos meus princípios e valores, e que nada me faça esquecer o motivo da minha escolha. Existem médicos de homens e médicos de alma. Assim, anseio ser os dois.”

 

* A equipe do setor de oncologia da Unidade Assistencial da Unimed Norte Fluminense é composta por: Renata Freitas, nutricionista, Lívia Tostes, fonoaudióloga, Vivian Bueno, farmacêutica, Dra. Danielle Goulart, oncologista clínica e coordenadora, Dra. Maria Anisia Sepulcri, especialista em Dor e Cuidados Paliativos, Micheline Calzolari, do administrativo, Tatiane Fonseca, psicóloga, e João Paulo Aguiar, enfermeiro.

Serviço: Unidade Assistencial Unimed Norte Fluminense. Tel. (22) 3823 – 2450.