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Sessão Viver: A música como uma experiência marcante para a vida

Sessão Viver: A música como uma experiência marcante para a vida

Sessão Viver: A música como uma experiência marcante para a vida

10 Julho 2019

Ao longo da vida, todos colecionamos experiências. Na infância e na adolescência, elas podem nos marcar para o resto da vida. Até mesmo influenciar na nossa personalidade, no nosso caráter.
E para contar como uma experiência, vivida lá na infância e que se estendeu para a adolescência e juventude, ainda hoje reflete na sua vida de adulto, convidamos para a sessão Viver desta edição, a fonoaudióloga Pamela Trindade. 
Pamela faz parte da equipe multiprofissional do Centro de Atenção à Saúde – CAS da Unimed Pato Branco. Mas antes de se tornar fonoaudióloga, ainda na sua infância ela desenvolveu uma habilidade muito especial, que poucos tem o privilégio. Ela aprendeu a tocar piano clássico, e por 12 anos fez aulas em um conservatório.


Como foi o seu primeiro contato com a música e o piano? 
Em 1998, quando fiz 7 anos, ganhei um pianinho da Barbie e fiquei fascinada com aquilo. Batia nas teclas, ensinava minhas bonecas a tocar, sem imaginar que mais tarde, eu estaria entrando numa aula de piano. Não ganhei o piano com essa intenção, era mais um brinquedo. Até a frase que a minha mãe dizia: “é mais um brinquedo para fazer barulho e trancar canto em casa.”
Nesta época, eu também participava da igreja do bairro. Minha avó era coordenadora de capelinha, e eu era coroinha, e uma professora de música resolveu fazer um trabalho voluntário nessa igreja. Foi então que eu tive o primeiro contato com a música, pois ela queria montar um coral e a minha vó me empurrou: “vai no coral”, porque o sonho dela era me ver cantar no coral. Eu não gostava muito de cantar, mas fui, porque a professora também iria dar algumas aulas de música.
Ela então começou a dar aula de teclado, junto com as aulas do coral. Eu fiquei alguns meses no teclado, quando a professora me convidou para estudar na escola que ela tinha em Palmas. Fiquei um ano nas aulas de teclado, e percebi que não era o que eu queria. Então pedi para minha mãe para deixar as aulas. Nesta época, já estava com 11 anos. Mas a professora sugeriu que eu fizesse um teste no piano. Eu já estava meio descontente, querendo sair de lá, mas ela insistiu e eu fui fazer. Na primeira aula de piano, quatro anos depois do meu pianinho, quando eu sentei e comecei a tocar eu falei: “achei o meu lugar no mundo, é aqui”. Porque é completamente diferente você fazer teclado e piano. As pessoas acham que é igual ou parecido, mas não é. E eu gostei muito, e aí eu nunca mais parei.


Por quanto tempo você permaneceu nas aulas de piano?
Foram doze anos, e doze anos é o tempo total de uma formação para conservatório. Eu estudava no “Conservatório Musical Júlia Amabile”, que só formava piano clássico. Formei em teoria e percepção musical. Quando recebi o diploma estava 19 para 20 anos. Contudo, o final do piano prático eu não consegui terminar, pois com a faculdade, minha carga horária aumentou. No início do primeiro ano da faculdade eu até conseguia fazer aulas por mês. Treinava no piano da faculdade e fazia as provas em Palmas. Só que chegou uma hora que eu não consegui mais, porque dos 11 aos 17 anos eu fazia aula todos os dias, das 13h30 às 18h. 

 

Você considera que esse contato com as aulas de piano, com a professora do Conservatório, tiveram alguma influência sobre a pessoa que você é hoje?
Eu vejo que esses doze anos, que eu estudei piano diariamente, com certeza construíram a pessoa que eu sou hoje. Porque é preciso ter muita autodisciplina, ser muito regrada, ter paciência, analisar várias coisas ao mesmo tempo, e vejo que hoje, muitas das minhas características, como ser  perfeccionista, detalhista, acho que isso às vezes é até um defeito, eu adquiri com o piano, que é uma habilidade que não tem igual, não tem como explicar o que se aprende, é muito diferente.


Que outro tipo de experiência ou aprendizado as aulas de piano lhe proporcionaram?
Quando eu fiz 14 anos, eu era uma das alunas mais velhas da escola e minha mensalidade aumentou muito, chegando a situação de que minha mãe não tinha mais como pagar. Aí eu conversei com a professora do conservatório e ela sugeriu que eu desse aulas para os alunos pequenos, em troca da minha mensalidade. E como era o meu último ano de teoria, eu tinha condição de ensinar. Este foi praticamente o meu primeiro emprego.
Outro fato, que foi bem marcante, foi quando eu fui base de uma menininha que era cega, o nome dela era Elis Regina. Ela morava em uma fazenda, era de uma família bem humilde. E um dia, ela estava cantando na igreja, e minha professora gostou muito dela e convidou para vir para escola. No começo, a professora tentou colocar outros alunos, da idade dela, para fazer a base, que significa ficar do lado da pessoa e tocar toda a base de tempo, de ritmo e ela só toca a melodia. Mas os outros alunos, nenhum teve paciência, e a professora disse que eu seria a pessoa certa para ajudá-la. Quando sentei do lado da Elis, ela segurou na minha mão e falou: “era bem essa mão que eu precisava”. E ela nunca mais me largou, ela só dava certo comigo. Fizemos até a apresentação de um recital e ela foi muito bem, tanto cantando, como tocando. E no final, um grupo de quatro ou cinco pais se reuniram e começaram a pagar a mensalidade para ela. Ela ficou bastante tempo na escola, e em todas as apresentações que tinha, participávamos, e eu tenho um carinho muito grande por ela, até hoje. 


Hoje você ainda toca piano?
Hoje não mais. Faz uns quatro anos que não toco. 


E você não tem vontade de ter um piano?
Tenho sim. Só ainda não senti a necessidade. Eu até tentei voltar a fazer as aulas há uns três anos, para terminar a parte prática, só que eram aos domingos, e a minha prioridade hoje é o trabalho, que exige uma rotina diferente, e é difícil parar uma tarde para ficar estudando piano, sabendo que eu tenho terapia para preparar, entre outras atividades. 


Você considera que o contato com a música faz bem para as pessoas, que é um hobby que elas deveriam investir?
Sim. E é uma atividade que para começar não tem idade. Só é preciso ter um pouco de vontade. E não precisa cantar ou tocar profissionalmente, é só ter contato com a música, independente do ritmo. Hoje eu vejo que eu sou muito eclética, não é porque eu fiz música clássica, que eu preciso gostar só de música clássica. Eu gosto de tudo. Além disso, a música traz muitos benefícios, desde a coordenação motora, a visão, a audição, essa sensibilidade de colocar uma dinâmica em cima da música. E hoje as pessoas tem muito acesso. Tem aula de música no Largo da Liberdade, por exemplo, onde ensinam a tocar violão de forma gratuita. A dica é vai, tenta que vai ser tudo de bom!


Hoje você está participando do projeto do Coral Viver Mais Unimed, como tem sido esta experiência?  
O Coral Viver Mais Unimed é um grupo grande e bem legal, e todos tem acima de 60 anos e eles adoram participar. E o mais legal, é que não tem nenhum que cantava, tem uma que cantava no coral da igreja, mas não era nada profissional. Todos chegaram crus, e mesmo ano passado, quando iniciamos, eles fizeram uma apresentação muito bonita. Esse ano eles estão com um gás, que olha, estou ensinando até notas para eles, valor, nome, separando as vozes e eles estão muito animados. Nós estávamos com 19 e agora já estamos com 25 participantes.

Pamela com o piano da Barbie, que ganhou quando criança 

Pamela estudou piano por 12 anos, no Conservatório Musical Julia Amabile