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Você já tomou água hoje?

Você já tomou água hoje?

Você já tomou água hoje?

29 Janeiro 2021

Por: Estela Mara Lopes Galvão Alves (Medicina da Família e Comunidade - CRM 33219) 

Com certeza em algum momento você já foi submetido a essa clássica indagação realizada pela maioria dos profissionais da saúde. Procuramos sistematicamente estimar a quantidade de água que os pacientes tomam como requisito fundamental de promoção e cuidado!

Mas afinal de contas, a pergunta que não quer calar é: será que beber água é tão importante assim ou é só excesso de retórica?

Talvez a principal questão não seja se “você já tomou água hoje?”, mas sim “por que é tão difícil tomar água todos os dias?”

A resposta pra essa dúvida é bastante simples: porque eu não quero!

Oi?

Sim... Simples assim!!! “Se eu não sinto sede, por que tomar água?”

A dicotomia entre razão e querer é um paradigma difícil de ser quebrado. Exige força de vontade, perseverança e, acima de tudo, conhecimento e informação suficiente que nos convençam de que vencer a inércia e optar pela mudança é a melhor decisão.

A Covid-19 veio como a “cereja do bolo” para dificultar mais ainda nossa aderência aos bons hábitos. Pacientes e profissionais da saúde paramentados da cabeça aos pés, submetidos a isolamentos em ambientes reclusos em pleno verão, se veem diante de um desafio de autocuidado, expostos ao risco de quedas pressóricas pela subsequente vasodilatação que o aumento da temperatura ambiente e corpórea gera, assim como a super dificuldade em retirar a máscara com todos os cuidados para evitar a contaminação, faz com que a ingesta hídrica seja a última das preocupações.

Dessa forma, sintomas como vertigem, cefaleia, sensação de pré-sincope e até mesmo desmaios tornam-se cada dia mais frequentes, confundindo os diagnósticos em tempos de tantas incertezas.

Gosto de refletir e constatar que a maioria das queixas clínicas dentro da Atenção Primária à Saúde tem sua gênese dentro da sutileza dos detalhes.

O fato é que o autocuidado com a ingesta hídrica adequada, alimentação equilibrada, controle das emoções, meditação, atos tão essenciais dentro da promoção à saúde, são os mais facilmente negligenciados, levando ao adoecimento e intervenções excessivas que, na maioria das vezes, prejudicam mais do que beneficiam.

Nunca fomos tão sensibilizados a valorizar o que é basal a sobrevivência humana: respirar, nutrir, hidratar e observar o reflexo dessas ausências no contexto do cuidado nos induz ao sobrediagnóstico.

Sempre valorize os sinais que o seu organismo traz. Em tempos de altas temperaturas associadas a exigências de isolamento e paramentação, é fundamental respeitar e realizar os cuidados basais para qualidade de vida global.