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MITOS EM OFTALMOLOGIA

MITOS EM OFTALMOLOGIA

MITOS EM OFTALMOLOGIA

Muitas crendices populares acarretam redução da acuidade visual. Contribua para o combate à cegueira em crianças através da desmistificação, conversando com os pais, com seus auxiliares e amigos, esclarecendo o que é certo e descartando as atitudes erradas.

1- Relacionados ao recém-nascido:

“Conjuntivite no recém-nascido é curada com leite materno”

A conjuntivite que aparece no primeiro dia de vida é de origem irritativa, geralmente causada pela instilação do colírio nitrato de prata a 1%, não ocasionando problemas oculares. Porém, a conjuntivite iniciada entre segundo e terceiro dias de vida normalmente se associa à gonorréia, podendo levar à cegueira em poucos dias caso não seja adequadamente tratada. Conjuntivite entre terceiro e quinto dias geralmente é de origem bacteriana, devendo-se utilizar colírios antibióticos para seu tratamento.

“Catarata só aparece após os 50 anos”

A opacificação do cristalino pode ocorre ao nascimento, após trauma, após uso de corticosteróides, em portadores de diabetes ou ainda com o avanço da idade.

“Só se opera catarata congênita quando a criança crescer”

A catarata congênita deve sempre ser avaliada pelo oftalmologista. Quando bilateral e total, deve ser operada nos dois primeiros meses de vida, para que a visão se desenvolva sem deficiência (ambliopia). Quando a catarata não é total ou é monocular, a conduta deve ser avaliada caso a caso.

“Nascer com olhos grandes e azulados é muita sorte!”

A presença, ao nascimento ou nos primeiros meses de vida, de: buftalmo (olho grande), córnea edemaciada (de aspecto azulado), lacrimejamento intenso e fotofobia indica provável existência de glaucoma congênito ou outra doença ocular. Glaucoma congênito pode levar a cegueira e o recém-nascido deve ser submetido à cirurgia tão logo seja o diagnóstico.

“O lacrimejamento sara sozinho”

A obstrução congênita das vias lacrimais acomete cerca de 33% dos bebês. A maioria dos lacrimejamentos tem solução espontânea, através de massagens e uso de colírio antibiótico.Porém, se houver persistência da obstrução ou processo infeccioso repetitivos, deve ser feita sondagem das vias lacrimais antes do primeiro ano de vida.

“Toda pupila branca é causada por catarata”

A principal causa de pupila branca (leucocoria) é a catarata congênita, mas outras doenças graves, como a retinopatia da prematuridade, o retinoblastoma e inflações intraoculares, também podem parecer com leucocoria.

Em todos os casos, o tratamento precoce melhora muito o prognóstico.

2- Relacionados à criança maior:

“O uso do óculos vicial!”

Usar óculos não vicia. È freqüente a criança ignorar que pode enxergar melhor. Quando a visão melhora com o uso de óculos, é natural que ela queira usá-los freqüentemente.
Privando a criança do uso de óculos, o desenvolvimento da visão pode ser prejudicado. No Brasil, cerca de 10% dos escolares de primeira série precisam de óculos, mas somente 2% os utilizam.

“Se eu usar os óculos corretamente, meu grau vai diminuir ?”

A ametropia do olho depende da interação do tamanho do globo ocular com as lentes cristalino e córnea. O olho hipermétrope é menor e o míope é maior que o emétrope. Desta forma, as crianças hipermétropes têm tendência a diminuir o grau com o crescimento; já os míopes, independentemente do uso de óculos, mostram tendência a aumentar seu grau à medida que ocorre o crescimento conjunto do globo ocular e do corpo.

“Existe algum tipo de exercício para o fortalecimento dos olhos?”

A insuficiência de convergência e o estrabismo podem melhorar com exercícios ortópticos. Não há exercícios com eficácia cientificamente comprovada para tratamento ou prevenção do uso de óculos.

“Ler demais prejudica a visão”

Esforço visual não é prejudicial ao olho; costuma ocorrer o contrário, ou seja, quanto mais se lê, mais facilmente o cérebro interpreta o conteúdo da leitura.

“Ler com pouca luz enfraquece a visão da criança”

O excesso o a insuficiência de iluminação podem dificultar a leitura e cansar o leitor, porém não prejudica os olhos. A criança tem sensibilidade retiniana maior e consegue ler com menor intensidade de luz em relação ao adulto, especialmente se consideramos aqueles adultos com mais de 40 anos de idade.

“Computador, TV e vídeo game prejudicam a visão da criança”

As televisões atuais não emitem raios ultra-violetas ou quaisquer outros raios em quantidade suficiente para prejudicar os olhos.

“A criança que precisa usar óculos é uma coitadinha”

O uso de óculos é um auxilio para que a criança possa enxergar. Devemos ter pena é das crianças que não podem comprar óculos e têm seu desenvolvimento prejudicado!

“A criança cega ou com baixa visão não pode freqüentar classe comum”

A criança cega ou deficiente visual raciocina como qualquer outra criança, apenas não enxerga como elas; por esse motivo, deve freqüentar classe comum e ter acompanhamento paralelo para suprir as dificuldades decorrentes de sua deficiência.

“A sensibilidade à claridade indica algum problema?”

Não necessariamente. Pessoa de olhos claros são mais sensíveis à luz. No entanto, algumas doenças corneanas podem cursar com fotofobia e lacrimejamento, sendo necessário um exame oftalmológico para que sejam descartadas.

“Meu filho levou um susto e ficou com os olhos vesgos”

O estrabismo concomitante ocorre por uma falta de sincronia entre os músculos externos do olho. O susto, o vento, a chuva e a poeira não provocam estrabismo.

“Estrabismo cura-se sozinho!”

Se a criança apresentar qualquer alteração no paralelismo dos olhos, deve passar por uma consulta oftalmológica, para evitar que o estrabismo se torne permanente e a criança desenvolva ambliopia. O exame também pode descartar a presença de tumores e outras doenças oculares com risco para a vida e/ ou para a visão.

“Todo estrabismo é cirúrgico!”

As etapas para o tratamento do estrabismo são:
· Prescrição de óculos (quando há necessidade)
· Oclusão do olho com melhor visão, para estimular o olho amblíope a desenvolver visão;
· Cirurgia (se necessário).

“A quantidade de graus da correção óptica diretamente

relacionada com a qualidade de visão que a criança terá?”

Deve-se diferenciar quantidade de graus e qualidade da visão. Pode-se ter uma quantidade de graus elevada com uma quantidade de visão satisfatória; ao contrário, crianças com poucos graus podem possuir má qualidade de visão por problemas oculares, tais como: ambliopia, estrabismo, cicatrizes, etc.
O ideal é ter uma boa qualidade de visão, independentemente do grau de correção óptica de que a criança possa necessitar.

“Coçar os olhos é um ato sem conseqüências danosas!”

As crianças alérgicas podem apresentar conjuntivite alérgica (coceira, secreção, sensação de areia, olho vermelho e fotofobia), que permanece até a fase de entrada na puberdade.
Essa conjuntivite deve ser tratada assim que detectada, para que não traga alterações corneanas no futuro. Coçar os olhos é muito prejudicial: leva ao aumento da pressão ocular, e a várias doenças, inclusive ceratocone (distorção corneana).

“Exame ocular: só quando a criança consegue se expressar”

O fato da criança não informar sobre sua visão não impede que se realizem todos os outros exames oftalmológicos.

“Existem formas de se quantificar a visão de bebês”

Não há uma idade fixa para se procurar um oftalmologista! Recomenda-se que toda criança seja examinada aos dois, quatro e seis ou sete anos de idade, ou ainda a qualquer momento em que se observe alguma anormalidade nos olhos ou em seu comportamento visual.
Algumas crianças precisam de óculos desde o primeiro ano de vida (em casos de catarata congênita, estrabismo, etc).

“Não é possível evitar-se acidentes oculares em crianças”

Acidentes evitáveis em casa
· Evita-se queimadura térmica ocular virando-se o cabo da panela para dentro.
· Evita-se a queimadura química ocular mantendo-se os produtos de limpeza longe do alcance das crianças.
· Evita-se a perfuração ocular negando-se à criança o acesso a brinquedos que tenham pontas, estilingues, facas e tesouras.
· Evita-se a queimadura por fogos de artifício não permitindo seu fornecimento à criança.
· Evita-se ainda lesão ocular através do cuidado com arbustos contendo folhas pontudas e/ ou espinhos.

“Iluminação com luz amarela no local de estudo da criança prejudica sua visão!”

A má iluminação pode provocar cansaço visual após leitura por tempo prolongado, mas não prejudica a visão ou o olho; o rendimento, entretanto, será menor.
O ideal é ler com luz branca, porém, se houver iluminação adequada, sem sombras por sobre o papel, não há inconveniente em seu utilizar luz amarela.

“Criança no banco traseiro do carro está segura, mesmo que

permaneça na direção do espaço entre dois bancos dianteiros”.

Nunca se deve deixar a criança entre os bancos da frente; nesta posição estará totalmente indefesa, pois qualquer freiada brusca poderá provocar choque da região cefálica com o console do carro.

“Ler com o livro muito próximo aos olhos pode ser prejudicial a visão”

Este hábito não prejudica os olhos. Entretanto, a manutenção do livro muito próximo dos olhos pode indicar a presença da miopia ou de outras causas de redução da acuidade visual. Esta posição pode ainda forçar a coluna, provocando dores na nuca e cefaléia.

“Cenoura melhora a visão!”

Uma dieta rica em vitaminas naturais (frutas, legumes e vegetais) melhora a condição física da criança e o seu desempenho; nesse sentido, é útil também para a saúde ocular. A quantidade de vitamina A necessária para um bom funcionamento dos olhos está, entretanto, presente em uma dieta normal.

“Ler no interior de um veículo em movimento prejudica a visão”.

Ler em ônibus, trens, aviões ou carros não é prejudicial aos olhos. Algumas pessoas podem se sentir indispostas durante leitura no interior de veículos em movimento, mas esta é uma reação individual.

“Quando os pais usam óculos, os filhos também os usarão!”

Se os pais usam óculos de grau alto (acima de sete graus), há uma maior probabilidade de que os filhos, ainda com pouca idade, também possam necessitar dos mesmos. Porém, esta não é uma regra absoluta.

“Qual a melhor idade para se iniciar o uso de lentes de contato?”

As lentes de contato têm indicação médica em pacientes que necessitam de lentes corretivas com elevados graus, sendo adaptadas mesmo a crianças pequenas. Já a indicação estética ou para a prática de esportes ocorre quando o jovem manifesta desejo de usá-las e tem condições de cuidar delas. Não existe uma

“idade mágica”, mas aos doze ou treze anos temos obtido bons resultados quanto à colaboração do usuário.

“Quando meu filho poderá realizar a cirurgia corretiva de miopia?”

As cirurgias para a miopia, astigmatismo e, em caráter experimental, a cirurgia hipermetropia são realizadas quando o grau estiver estabilizado, e isto só ocorre ao redor dos vinte anos de idade.

“A visão deve ser poupada?”

Não. O olho foi feito para ser usado. Faça bom uso deste sentido maravilhoso.

Dr. Eugenio José Fernandes de Oliveira

Fonte: Revista Brasileira de oftalmologia 2009