Revista Digital Ampla #50
"A prática médica sempre foi um misto de arte e ciência, porém, a medicina caminha para o desaparecimento do médico como o conhece- mos. Caminhamos para uma evolução tecnológi- ca (algoritmos), exames sofisticados, diagnósticos e cirurgias a distância que acabarão com a essência daquilo que por séculos caracterizou o atendi- mento médico que é a re- lação médico-paciente. E como a medicina caminha para ser exata, preditiva e fria, precisamos nos ater em qual será o papel do médico nesse contexto." 11 AMPLA • JUL/AGO/SET 2018 | Nefrologista, cooperado e vice-presidente da Unimed Campo Mourão Anestesiologista, cooperada e conselheira do Conselho Técnico e Ética da Unimed Guarapuava. Foi diretora na gestão passada "A medicina, o magistério e o monastério foram, por muito tempo, consideradas profissões sacerdotais, todas elas por seus indispensáveis papéis na sociedade: lidam, respectivamente, com a saúde, a inteligência e a espiritualidade. Todas elas necessitam, de quem as exerce, uma impor- tante exploração do interior humano: o que pensa, o que o faz sofrer, de onde vem, o que pretende. O monastério, ou sacerdócio, permanece como tal, apesar das grandes transformações da sociedade. Omagistério, principalmente em países carentes de princípios morais, como o Brasil, há muito tem- po foi capturado pelos governos, pelos sindicatos, por ideologias estranhas às suas próprias origens, e, por isso, foi desvalorizado e vive uma crise de identidade de difícil resolução. A medicina, infeliz- mente, segue o caminho do magistério e não do monastério. Como forma de regulação, no Brasil há um código de ética escrito pelo Conselho Federal de Medicina, que estabelece princípios de atenção ao paciente, de não mercantilização, de zelo pelo doente, e esse código deveria ser mais cobrado dos profissionais, para correção dos desvios éticos. Do lado da educação, houve enorme proliferação de escolas médicas, que colocarammédicos com formação carente de prática, de habilidades e de princípios. O futuro da medicina será, ou não será, melhorado hoje. E o caminho inevitavelmente passa por coragem, por justiça e por transparência. A coragem será necessária para exigir revalidação dos títulos de especialidade, exigindo uma prova a cada cinco anos para manter-se como especialista. Países desenvolvidos já exigem essa avaliação há muitas décadas. A qualidade da medicina daria um salto espetacular. A justiça será necessária para coibir a mercantilização da medicina, a principal respon- sável pela escala incessante de custos em saúde, que compromete a vida das pessoas. Ministério Público, Justiça e Conselhos de Medicina deve- riam imediatamente fiscalizar, proibir e punir a participação de médicos na venda de órteses, próteses, exames desnecessários e medica- mentos. As iniciativas policiais nesse sentido poderiam ser ampliadas umas 50 vezes e ainda seria muito pouco. A inflação da saúde viria para níveis “normais” em um curto prazo, e a dignida- de da profissão seria resgatada. A transparência, apesar de parecer banal, é a mais difícil delas. No Brasil, não se conhecem os dados de resultados em saúde: a maioria dos hospitais e clínicas não divulgam, porque não são exigidos para tanto, o que impede a melhoria da qualidade. Já tive a oportunidade de perguntar sobre o assunto para umministro da saúde: não soube responder. Há um possível futuro melhor para a medicina, que pode retomar o caminho da profissão sacerdotal que foi no passado, mas ele passa por abdicação e dedicação, dons importantes e indispensáveis para o médico de hoje, e de amanhã." Dr. Denis Rogério Aranha da Silva Dra. Silvana Freire Scheidt
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