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Artigo – Os micro-homens da nação

Artigo – Os micro-homens da nação

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A polêmica político-jurídico-constitucional é destaque na mídia. De Norte a Sul, o assunto é preferência nacional, ensejando altos níveis de audiência. Independentemente do justo encaminhamento, um dos ângulos de visão ainda é pouco analisado. Trata-se de perscrutar a conduta e o caráter dos homens do parlamento da República e do empresariado que vive às custas do Estado. Na boca de tais indivíduos, a expressão repetida Estado democrático de direito tornou-se palavra gasta. Tanto dos "fora Dilma" quanto dos "não vai ter golpe". As atitudes não correspondem aos discursos (por sinal, ridículos). Bastou acompanhar o voto de cada parlamentar para constatar que há uma decadência de princípios. Perderam-se, no decorrer da evolução cultural brasileira (se é que em algum tempo histórico houve), a dignidade, a confiabilidade, a credibilidade, a hombridade, a honorabilidade e a vergonha. Elevam-se a mediocridade e os interesses paroquiais.
Sem dignidade, ausentes os princípios da moralidade, o homem deixa a condição de pensante e cerebral, transformando-se em mero ser rastejante e disforme. Ao apreciar as delações dos políticos e dos empreiteiros corruptos, falando na devolução de milhões de dólares, numa espécie de ato confessional público, observa-se a expressão de frieza psicopática, aquela em que se perderam os sentimentos morais e éticos. Ressalta a expressão facial que não denota culpa, que manipula as emoções dos outros para atingir seus próprios interesses. São os micro-homens: corruptos e corruptores, pigmeus na mesma escala de valores.
Quanto ao presidente da Câmara, se vivêssemos em um país sério e rígido em princípios, o deputado Eduardo Cunha já estaria destituído há muitos meses. Veja-se o constrangimento que representa — só para citar o depoimento do senador Cristovam Buarque — receber um pedido que encaminha o impeachment assinado pelo réu e presidente da Câmara, com a exata firmatura constante nos cheques de contas escusas na Suíça. O mesmo responsável, a mesma assinatura, o mesmo homem nas duas pontas. Lá e cá. No poder e na marginalidade. No exercício da maior representação nacional e nos escaninhos das sombras indignas da corrupção. Não é mais possível conviver com tais ambiguidades. A desagregação se instala a cada passo. Não há lideranças confiáveis. Aliás, não há nem lideranças, quanto mais confiáveis. Em quem votar nas eleições próximas?
Atingidos os encaminhamentos legais da tramitação do rito de admissibilidade enviado ao Senado, faltando poucos dias para a batalha final, chegará também a hora de expulsar da vida pública os micro-homens que restaram, para limpar a água da piscina dos resquícios da imundície, na tentativa de torná-la mais límpida e transparente.

Nilson Luiz May é médico, escritor e presidente da Federação Unimed/RS


Rosane Rodrigues da Cunha