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Artigo – Vencendo Barreiras

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Na Assembleia Legislativa de Pernambuco, em 22.03.1879, discutia-se a petição apresentada por Clodoaldo Alves de Oliveira, em favor de sua filha Josefa Agueda Felisbella Mercedes de Oliveira (RAGO, Elisabeth Juliska. A ruptura do mundo masculino da medicina: médicas brasileiras do século XIX. In Cadernos Pagu (15) 2000: p. 199-225) que, aos 15 anos de idade, desejava seguir a carreira médica. No Brasil não era permitido o ingresso de mulheres em cursos superiores; a jovem postulava uma bolsa de estudos que lhe permitisse seguir para os Estados Unidos, onde havia escolas de medicina exclusivas para o sexo feminino.
O deputado e jurista, Tobias Barreto, pronunciou-se favoravelmente ao pedido de “uma menina inteligente”, como afirmou. Dele discordou o deputado Malaquias Antônio Gonçalves, médico e cirurgião, que se declarou contrário a que mulheres tivessem acesso a faculdades. O saber médico da época contribuía para a disseminação de um modelo de ciência que afirmava ser o destino social da mulher definido pela sua anatomia. A crença na diferença social entre os sexos, apoiada na física e na biologia, levava à convicção de que – acreditando-se que o cérebro feminino fosse menor do que o masculino - as mulheres seriam desprovidas de capacidade física e intelectual para seguir estudos de nível superior.


 
Tinha-se por inegável a inferioridade biológica do sexo feminino e insistia-se na exclusão da mulher dos espaços de atuação masculina. Nas searas da arte de curar, aceitavam-se como coadjuvantes enfermeiras e parteiras, mas o exercício da medicina permanecia restrito aos homens.
 
Durante os debates acalorados que se seguiram, Tobias Barreto desqualificou o determinismo biológico, que considerava uma “teoria decrépita”. Para o deputado, a apregoada inferioridade feminina decorria da reclusão em que a mulher era obrigada a viver, por imposição da sociedade. Se lhe fosse permitido amplo acesso aos estudos, essa inferioridade deixaria de existir. Registre-se que Barreto apoiava a emancipação social e civil da mulher, mas não sua emancipação política; entendia que o elemento feminino não estava preparado para o exercício de cargos públicos.
 
Josefa Agueda compareceu à Assembleia e pediu aos deputados: “Concedam-me uma bolsa de estudos e serei útil à minha província”. De nada valeu o apelo: seu pleito foi negado. Mesmo assim, com o apoio paterno seguiu para os Estados Unidos, aonde veio a matricular-se na New York College and Hospital for Women. Na mesma escola estudava a carioca Maria Augusta Generoso Estrela, beneficiária de uma bolsa de estudos custeada pelo Imperador Pedro II. As duas brasileiras ficaram amigas e chegaram a fundar o jornal “A Mulher”, voltado para temas relativos à emancipação feminina.
 
Por motivos de saúde, Josefa Agueda voltou para o Brasil sem formar-se. Em sua terra natal – Tejucupapo (PE) - dedicou-se a trabalhos paramédicos e socioculturais(Guimarães, Mário V. Josefa Águeda, uma heroína do Tejucopapo. Disponível em: HTTP://target.com.br/services/itpack31/uploads/sgp/arquives/josefaagueda.pdf). Maria Augusta doutorou-se em 1881, tornando-se a primeira médica de nacionalidade brasileira. Foi oradora da turma – de apenas quatro alunas – e recebeu medalha de ouro pelo desempenho acadêmico. Ao regressar, sob intensa curiosidade, submeteu-se a exames para revalidação do diploma. Aprovada, estabeleceu-se com consultório no Rio de Janeiro, exercendo a profissão até avançada idade (Capuano, Yvonne. Maria Augusta Generoso Estrela. Sociedade Brasileira de História da Medicina. Disponível em: HTTP//sbhm.org.br/índex.asp?p=médicos_view8codigo=169).
 
Com a Reforma Leôncio de Carvalho (1879), abriram-se para as mulheres as portas das faculdades brasileiras – inclusive as de medicina. A primeira médica formada no Brasil foi a gaúcha Rita Lobato Velho Lopes, que se doutorou na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1886, quase oitenta anos depois de fundado o primeiro curso médico-cirúrgico do país por D. João VI.
 
Vencendo barreiras, é atualmente expressivo o número de mulheres médicas no Brasil. Ao findar o século XX, 32,5% dos médicos brasileiros eram mulheres; na faixa etária até 35 anos, esse percentual chegava aos 50% (Machado, M.H. Os médicos no Brasil – um retrato da realidade. Apud Rezende, Joffre M. O machismo na história do ensino médico, In À sombra do plátano. São Paulo: Ed. Unifesp, p. 131-136). Longe estão os dias em que as estudantes de medicina eram vistas como “desertoras do lar (...) arautos que nos vêm mostrar prenúncios funestos da dissolvência da família” (Malthus, Leandro. Apontamentos e comentários sobre a escola de medicina contemporânea. Apud Rezende, Jofre M. Op. cit.).
 
Lena Castello Branco é doutora em História, professora Titular (aposentada) da Universidade Federal de Goiás, sócia emérita do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, sócia fundadora da Sociedade Brasileira de História da Medicina e colaboradora do informativo Unimed Cerrado em Foco (lenacastelo@uol.com.br)

Rosane Rodrigues da Cunha