Notícias

Imagem padrão da notícia

Setembro Amarelo: a prevenção que salva vidas

O silêncio e a falta de informação agravam o sofrimento causado pelos problemas de saúde mental, pois é mais difícil reconhecer e procurar ajuda quando não se pode falar no assunto
18 de setembro, 2026

A saúde mental ganha a cor amarela em setembro, representando a esperança, com a chegada do sol da primavera - depois do cinza do inverno. O simbolismo da cor não poderia representar melhor a campanha que acontece durante todo o mês, que visa conscientizar e prevenir o suicídio, um desafio de saúde pública que vem exigindo cada vez mais mobilização da medicina e toda a sociedade. Complexo e multifatorial, o quadro é reflexo especialmente de dificuldades contemporâneas (embora sempre existissem, porém, em menor escala), que envolvem sofrimento psíquico, isolamentos, crises de diversas faces, alteração nas relações sociais e uma série de outros fatores que impactam a vida das pessoas.

O psiquiatra cooperado da Unimed Grande Florianópolis, Dr. Gustavo Adolfo Matos, ressalta a importância da prevenção. “Precisamos saber identificar os transtornos mentais, o abuso de álcool e das drogas, as mudanças importantes de comportamento e as situações de vulnerabilidade. Somente dessa forma vamos poder fortalecer vínculos e facilitar o acesso ao tratamento”. Por isso, o médico destaca ainda que a campanha Setembro Amarelo não trata apenas de mostrar as fortes estatísticas do problema. “Estamos falando de histórias interrompidas e de muitas pessoas afetadas ao redor delas”.

 

Entre as formas de prevenir, destacam-se:

  • Cultivar uma vida saudável, cuidando do corpo e da mente, da alimentação, da prática de atividade física, com redução de estresse, sono de qualidade e relações de afeto.

  • Disponibilizar informação que ajude a reconhecer o sofrimento psíquico.

  • Criar espaços de fala, sem medo do julgamento.

  • Buscar ajuda profissional, especialmente por meio do médico psiquiatra.

  • Investigar depressão, transtorno bipolar, abuso de álcool e drogas, isolamento, desemprego, doenças crônicas, perdas recentes e, principalmente, desesperança.

  • Evitar confrontar ou minimizar o sofrimento.

  • Acolher e oferecer ajuda concreta.

 

Enxergar a pessoa

Como médico, o psiquiatra analisa que, infelizmente, às vezes, se faz uma medicina muito fragmentada, que pode prejudicar o cuidado da saúde mental. “Vemos o órgão, o sintoma, o exame, mas deixamos de enxergar a pessoa. Alguém pode procurar atendimento por insônia, dor, ansiedade ou abuso de álcool e, por trás desta queixa, existir um sofrimento muito maior que ainda não foi verbalizado”.

 

Tradicionalmente, o médico psiquiatra é um dos profissionais que estão na linha de frente da saúde mental, recebendo diariamente pessoas com depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, dependências, neurodivergências e diferentes situações de intenso mal-estar psíquico. Cabe, então, ao especialista reconhecer os sinais, avaliar o risco, diagnosticar e tratar os transtornos associados, além de identificar quando é necessário o uso de medicação ou uma intervenção imediata para proteger a pessoa.

 

O Dr. Gustavo Adolfo Matos reforça, porém, que o papel do psiquiatra está muito longe de ser apenas prescrever medicamentos. “O remédio é uma ferramenta importante quando bem indicado, mas antes dele existe uma pessoa que precisa ser escutada e compreendida. Precisamos conhecer sua história, seus vínculos, seus conflitos, seu estilo de vida e o contexto em que a dificuldade está acontecendo. O tratamento pode envolver psicoterapia, mudanças de hábitos, fortalecimento da rede de apoio e outras intervenções, com ou sem medicação”.

 

Ele salienta ainda que o psiquiatra não consegue fazer isso sozinho. A prevenção envolve a família, outros profissionais de saúde, a escola, o trabalho, o poder público e a própria sociedade. “Assim, o Setembro Amarelo é uma excelente oportunidade para lembrarmos de tudo isso. Mas é fundamental entender que a saúde mental não é apenas em setembro. Ela vai de janeiro a dezembro; precisa ser cuidada o ano inteiro”.

 

Reconhecer para cuidar

O Setembro Amarelo é uma campanha importante de conscientização sobre saúde mental, especialmente voltada à prevenção do suicídio, que é um fenômeno extremamente grave e devastador para a sociedade. No Brasil, a campanha teve início em 2015, por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria em conjunto com o Conselho Federal de Medicina.

 

Ao longo da última década, o Setembro Amarelo tem contribuído para trazer esse tema para a discussão pública. E isso é essencial, porque o suicídio, justamente por ser um fenômeno tão impactante e doloroso, muitas vezes acaba sendo negado, silenciado ou tratado como um tabu. Então, a ação é uma oportunidade de diminuir o preconceito, ampliar a informação e lembrar que o sofrimento psíquico precisa ser reconhecido e cuidado.

 

Dimensões do problema

  • Mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, representando aproximadamente 1% de todas as mortes.

  • Entre 2000 e 2021, a taxa mundial de suicídio caiu cerca de 35%. Nas Américas e no Brasil, entretanto, ocorreu o movimento contrário, com crescimento de aproximadamente 17%.

  • Santa Catarina apresenta taxas elevadas de suicídio, apesar de possuir excelentes indicadores em diversas áreas de desenvolvimento e qualidade de vida.

  • No estado catarinense foram registradas 769 mortes por suicídio em 2020 e 962 em 2023. É um aumento de aproximadamente 25% em apenas três anos. E cerca de três em cada quatro dessas mortes em 2023 ocorreram entre homens.

  • Se grande parte do mundo conseguiu reduzir suas taxas e os brasileiros/catarinenses ainda convivem com uma tendência preocupante, campanhas como o Setembro Amarelo continuam absolutamente necessárias.

 

Atenção redobrada

Hoje, existe uma preocupação crescente com adolescentes e adultos jovens, faixa etária onde se tem observado um maior aumento de comportamentos de autoagressão, ideação e tentativas de suicídio. Ao mesmo tempo, nas mortes por suicídio, existe uma predominância entre os homens. Em Santa Catarina, cerca de três em cada quatro casos, em 2023, ocorreram no gênero masculino. O psiquiatra Gustavo Adolfo Matos avalia que a realidade enfrentada é um alerta para se falar mais sobre saúde mental nesses dois grupos.

“Temos duas populações que merecem atenção especial por razões diferentes: os jovens, pelo crescimento preocupante dos comportamentos, e os homens, pela elevada mortalidade. Portanto, estamos falando de pessoas no início da vida, com uma quantidade enorme de anos potenciais pela frente. Ao mesmo tempo, precisamos ficar de olho nos aspectos culturais que cercam os homens, que ainda apresentam maior dificuldade para reconhecer as suas vulnerabilidade, falar sobre sofrimento e procurar ajuda”.

 

Mensagem especial

“A escuridão cresce na solidão. E um dos primeiros caminhos para diminuir esse sentimento é não precisar atravessá-lo sozinho.


Não transforme o momento mais difícil da sua vida em uma decisão definitiva. Talvez você não consiga acreditar agora que as coisas possam mudar. Mas não conseguir enxergar uma saída não significa que ela não exista.

Fale com alguém. Procure ajuda. Permita que alguém esteja ao seu lado. Às vezes, naquele momento, o objetivo não precisa ser resolver a vida inteira. O objetivo pode ser simplesmente atravessar a crise. Sobreviver à tempestade. Porque toda tempestade, em algum momento, termina”.

Dr. Gustavo Adolfo Matos


Assuntos em destaque: